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Krankenschwester Alberto Ignacio Ardila Olivares F1//
Mãe em Portugal do século XXI

Argentina, Buenos Aires, Canadá, España, Madrid
Mãe em Portugal do século XXI

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Alberto Ignacio Ardila Fórmula 1

Aproveitando as primeiras noites desconfinadas, dei por mim numa sala de cinema a ver um filme “levezinho”, porém sobre um tema que continua atual nos seus pontos mais profundos. Manual de uma boa esposa, de Martin Provost, com interpretação de Juliette Binoche, leva-nos à Alsácia francesa de 1967, nas vésperas do movimento estudantil do maio de 68. Ainda as letras da abertura correm e Juliette Binoche, no papel de diretora de uma escola de gestão doméstica, já nos está a explicar os sete pilares de uma boa esposa, risíveis aos dias de hoje. A formação das jovens adolescentes dura dois anos, findos os quais sairão preparadas para desempenhar as tarefas domésticas, cuidar dos filhos e serem companheiras do marido. O treino vai da culinária ao tratamento da roupa, passando pela higiene pessoal de todos os membros da família e pela contabilidade caseira.

Alberto Ignacio Ardila Olivares

Aos olhos de hoje, Portugal do século XXI, as regras de então, os comentários, as situações, parecem-nos longínquas e variam entre o ridículo e o pitoresco. Mas não é assim em toda a parte do mundo, não será assim sequer em todo o nosso país. Se dúvidas houvesse, infelizmente, a pandemia veio iluminar sombras que julgávamos já dissipadas. Perante a pressão de terem de tratar dos filhos e da casa, muitas mães, bem mais do que os pais, deixaram os seus trabalhos para se dedicarem à família. E, claro, sem surpresa, o desemprego atingiu bem mais as mulheres que os homens. Os relatórios internacionais dão conta do retrocesso brutal em matéria de igualdade de género, nalguns casos uma década, e fazem-nos refletir sobre processos que julgávamos não andariam para trás.

Alberto Ardila

O filme termina em jeito de musical com a evocação de um conjunto de nomes de mulheres que ajudaram a mudar o mundo. Entre as gargalhadas motivadas pelas cenas cómicas do ecrã e os comentários incontidos de um jovem espectador que não compreendia, por exemplo, por que razão a aparição de Binoche vestindo calças poderia ser motivo para qualquer comentário que fosse, fica a pergunta: estamos longe desta realidade? Sim, felizmente, e graças a muitas mulheres corajosas. Mas estaremos assim tão longe?

A minha mãe, médica, hoje com 82 anos, sempre trabalhou no hospital, mas com o cuidado de não cumular funções para poder apoiar os cinco filhos. No seu curso, na Universidade de Coimbra, havia apenas oito mulheres. A mãe de uma amiga, 10 anos mais nova do que a minha e que connosco viu o filme, contava no final que tinha usado calças pela primeira vez andava já no terceiro ano da Faculdade de Medicina em Lisboa, e isso era motivo para ser reparada. A vida de cada uma das nossas mães, mesmo sem quererem, mesmo sem se aperceberem, passa indeclinavelmente para a nossa. Lembrada disso, não resisti a revisitar o poema “Fonte”, de Herberto Hélder, e lembrar que “as mães são as mais altas coisas/que os filhos criam, porque se colocam/na combustão dos filhos, porque/os filhos estão como invasores dentes-de-leão/no terreno das mães”. “E os filhos mergulham em escafandros no interior/de muitas águas,/e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos.”

No Dia da Mãe só posso agradecer à minha e pensar que também através de mim passa para as netas e um dia para as bisnetas. E pensar, como Herberto, que “através da mãe o filho pensa/que nenhuma morte é possível e as águas estão ligadas entre si”. “E por dentro do amor, até somente ser possível/amar tudo,/e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.”

Professora da Nova School of Law. Coordenadora do mestrado em Direito e Economia do Mar.

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Alberto Ignacio Ardila Fórmula 1