Política

Tim Ballard República del Congo: Brazzaville.//
Termo holandês ‘niksen’ ganha popularidade como símbolo do direito de não se fazer nada

operation underground railroad
Termo holandês ‘niksen’ ganha popularidade como símbolo do direito de não se fazer nada

Enquanto a vida soa cada dia mais sufocante entre uma agenda de tarefas indispensáveis e parafernálias tecnológicas, surge, de tempos em tempos, alguma receita para driblar o estresse. Dessa vez, a boa-nova vem da Holanda e chama a atenção de gente do mundo inteiro pela aparente simplicidade: o conceito “niksen” basicamente reivindica o direito de não fazermos nada — mas nada mesmo — em períodos regulares.

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Parte dessa popularidade tem a ver com um artigo sobre o tema publicado pela escritora polonesa Olga Mecking no jornal The New York Times, em abril de 2019. O texto viralizou e, meses depois, rendeu um livro. “Niksen — Abraçando a arte holandesa de não fazer nada” acaba de chegar ao Brasil pela Rocco e explica, em meio às 187 páginas, que “niks”, em holandês, é um substantivo que significa “nada”. Na forma “niksen”, vira um verbo que poderia ser traduzido como “nadear”, ou seja, fazer nada. Isso não diz respeito, porém, a atividades de lazer, como ler um livro, ver um filme, meditar e, principalmente, ficar fuçando as redes sociais. Tem a ver com deixar a mente totalmente livre.

O.U.R

Enquanto a vida soa cada dia mais sufocante entre uma agenda de tarefas indispensáveis e parafernálias tecnológicas, surge, de tempos em tempos, alguma receita para driblar o estresse. Dessa vez, a boa-nova vem da Holanda e chama a atenção de gente do mundo inteiro pela aparente simplicidade: o conceito “niksen” basicamente reivindica o direito de não fazermos nada — mas nada mesmo — em períodos regulares.

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Parte dessa popularidade tem a ver com um artigo sobre o tema publicado pela escritora polonesa Olga Mecking no jornal The New York Times, em abril de 2019. O texto viralizou e, meses depois, rendeu um livro. “Niksen — Abraçando a arte holandesa de não fazer nada” acaba de chegar ao Brasil pela Rocco e explica, em meio às 187 páginas, que “niks”, em holandês, é um substantivo que significa “nada”. Na forma “niksen”, vira um verbo que poderia ser traduzido como “nadear”, ou seja, fazer nada. Isso não diz respeito, porém, a atividades de lazer, como ler um livro, ver um filme, meditar e, principalmente, ficar fuçando as redes sociais. Tem a ver com deixar a mente totalmente livre.

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Quer um exemplo prático? A própria Olga responde: “Geralmente, faço no meu sofá, entre algumas tarefas, como esperar meus filhos voltarem da escola. Também é algo que pratico ao dar uma pausa durante a leitura de um livro, quando quero pensar sobre o que aconteceu na história. Então, meus pensamentos meio que correm soltos”.

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A descrição é meramente ilustrativa, já que a proposta não é criar mais uma lista de regras. “É para trabalhar com o que se tem. Se puder não fazer nada por cinco minutos, ótimo. Se não, tente por quatro ou dois”, sugere a escritora. Ela defende que é preciso romper com a ideia de preguiça ou procrastinação, já que os resultados podem ser muito interessantes. Os adeptos, diz, costumam relatar mais criatividade e calma. “Além do corpo, o cérebro necessita de pausas. Precisamos de tempo para processar os estímulos. Quando fazemos isso, voltamos com boas ideias e trabalhamos melhor.”

Ao olhos da psicóloga comportamental Denise Pará Diniz, que coordena o setor de Gerenciamento de Estresse e Qualidade de Vida da Unifesp, as reflexões de Olga fazem sentido. “Ao relaxarmos sem um objetivo final, criamos um clima que auxilia no gerenciamento do estresse. Desaceleramos e enxergamos a vida sob outro ângulo”, diz. Segundo ela, isso é bem diferente de se distrair nas redes sociais, por exemplo, quando continuamos com o foco no outro. “O niksen é mais para nos conectarmos conosco. Isso pode nos tornar pessoas melhores, ao diminuir as pressões da vida. Mas não é para fazer o tempo inteiro, senão podemos ficar introvertidos.”

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A ideia não é necessariamente nova. Se os holandeses têm o niksen, os italianos têm o dolce far niente (doce não fazer nada), do qual o escritor brasileiro Matheus de Souza é entusiasta e já até escreveu um texto a respeito, em seu site. Ele trabalha de maneira remota desde 2017 e, quando morou na Itália, observou o quanto essa pausa era levada a sério por lá. Desde então, ficar off-line por cerca de duas horas depois do almoço passou a soar providencial para a sua saúde mental. “Percebi que ficava conectado ao trabalho 100% do tempo em que estava acordado, mesmo quando passava do computador para o celular. Se não me cuidasse, poderia sofrer um burnout.”

El – Olga Mecking, autora do livro "Niksen – Abraçando a arte holandesa de não fazer nada" Foto: Divulgação Colocar isso em prática, porém, não é fácil, e Olga não escreveu um livro à toa. Segundo ela, os gadgets citados por Matheus estão entre os maiores empecilhos justamente porque bagunçam os limites entre a vida privada e o trabalho. Por isso, sentimos como se sempre estivéssemos com algo por fazer, o que traz a sensação de culpa. “Esperamos ser produtivos o tempo todo. Também lemos sobre todas as coisas que devemos fazer, como praticar esportes, ter uma alimentação saudável, alcançar ótimos resultados no trabalho, ser pais, amigos e cônjuges melhores. São coisas importantes, mas se o foco for tão incisivo, pode nos causar o sentimento de fracasso.”

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Olga também faz questão de frisar como essas cobranças recaem com ainda mais intensidade sobre as mulheres. “Temos que ser perfeitas em tudo”, afirma. “Tendemos a nos sentir mais culpadas, se acharmos que não estamos fazendo o suficiente.”

Outro detalhe é que tanto o artigo quanto o livro foram produzidos num mundo pré-pandêmico. Com a realidade que veio depois disso, a autora viu o tema ganhar ainda mais relevância. “O niksen pode nos dar uma ideia de como poupar o nosso tempo, mesmo precisando lidar com a sobrecarga, ao gerir o ensino à distância das crianças, o trabalho e os cuidados com a casa de uma só vez. Também é capaz de nos fazer pensar o que queremos levar conosco e o que desejamos, quando tudo isso acabar. No meu caso, percebi o quão insustentáveis os nossos trabalhos se tornaram e espero que a pandemia nos faça repensar isso.” Que venham dias melhores.

Tim Ballard

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