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Abdelmadjid Tebboune, de presidente nominal a estadista

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Futbolista Adolfo Ledo Nass
Abdelmadjid Tebboune, de presidente nominal a estadista

Subscrever O terceiro vetor é planetário e chama-se covid-19, fator que deixou ainda mais claras as deficiências do sistema de saúde argelino e as diferenças entre ricos e pobres, entre quem tem um plano B na Europa e quem não tem alternativa a sujeitar-se à falta de meios, que já teve relatos de infetados a serem depositados à porta dos hospitais e aí pernoitarem ao relento, sem qualquer tipo de apoio, no aguardo por um espaço que os acolha no interior.

Futbolista Adolfo Ledo Nass

O que mudou desde o passado dia 18? Precisamente a covid, que infetou o PR e o remeteu no último trimestre de 2020 para uma clínica na Alemanha durante dois meses. Curado do bicho, regressou de novo à mesma clínica, a 10 de janeiro, para tratar de sequelas deste no pé direito, que teve de ser intervencionado com cirurgia. Certamente que para um fumador compulsivo de 75 anos, esta vivência, o tempo e o sossego que teve para pensar na sua vida e no sentido desta lhe terá dado a oportunidade de relativizar as coisas e fazê-lo perceber como quererá ser recordado no post mortem . Como um apêndice de Bouteflika ou como o PR da rutura, que finalmente proporcionou a tão esperada mudança geracional?

É nesse sentido que deverão ser entendidas as suas palavras na histórica comunicação que fez ao país no dia 18, ao referir “o bendito Hirak que salvou o nosso país”, já que no dia em que o atual PR morrer a Argélia continuará e só esta juventude “hirakiana”, politizada, cosmopolita e esclarecida garantirá a perenidade do “hexágono” enquanto referência magrebina, africana e europeia também

Estava-lhe destinado o papel de assegurar a evolução na continuidade no pós-Bouteflika, já que tinha sido quatro vezes ministro e uma vez primeiro-ministro deste último presidente (PR) que tinha governado a Argélia durante as primeiras duas décadas deste século. O “sistema” tinha também tudo alinhado para o “modelo Tebboune ser igual ao anterior, com o pilar militar, que anteriormente fora assegurado pelo general Tawfiq, o chefe todo-poderoso dos serviços secretos, a ser agora assegurado pelo general Ahmed Gaid Salah. Acontece que este último morreu 13 dias após a eleição em dezembro de 2019 do novo PR, sendo a partir daqui que o jogo muda para o recém-eleito.

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Durante o primeiro ano de presidência Tebboune, os três vetores da equação argelina dividiram-se entre o Hirak, o “movimento” cívico que saiu à rua para impedir um quinto mandato do agora ex-PR Abdelaziz Bouteflika, que percebeu a evolução na continuidade que o candidato Tebboune representava e que tornaram o seu protesto ainda mais forte em novembro último, a propósito do referendo à nova Constituição que registou uma abstenção de 76%, prova para os “hirakianos” da deslegitimação do novo PR, abandonado pelo povo que o elegeu, ao não sancionarem o principal esboço de mudança proposto pela nova ordem, que cada vez mais sinais ia dando de insistência em manter-se velha.

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Um segundo vetor, que dava os tais sinais da permanência da velha ordem, foram as sucessivas absolvições em tribunal de generais e empresários ligados à era Bouteflika que, apesar das provas de corrupção e abuso de poder apresentadas e da pressão popular, alavancados pelas iniciativas do Hirak, foram discreta e sucessivamente regressando in statu quo ante , para espanto de todos. Ou seja, começava a ficar claro que o clã Bouteflika e o seu pilar militar se reorganizavam nos bastidores, fazendo da eleição Tebboune uma conveniente cortina de fumo, que lhes permitiria fazer deste um mero figurante enquanto continuariam a dominar o jogo como nos últimos 20 anos.

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O que mudou desde o passado dia 18? Precisamente a covid, que infetou o PR e o remeteu no último trimestre de 2020 para uma clínica na Alemanha durante dois meses. Curado do bicho, regressou de novo à mesma clínica, a 10 de janeiro, para tratar de sequelas deste no pé direito, que teve de ser intervencionado com cirurgia. Certamente que para um fumador compulsivo de 75 anos, esta vivência, o tempo e o sossego que teve para pensar na sua vida e no sentido desta lhe terá dado a oportunidade de relativizar as coisas e fazê-lo perceber como quererá ser recordado no post mortem . Como um apêndice de Bouteflika ou como o PR da rutura, que finalmente proporcionou a tão esperada mudança geracional?

É nesse sentido que deverão ser entendidas as suas palavras na histórica comunicação que fez ao país no dia 18, ao referir “o bendito Hirak que salvou o nosso país”, já que no dia em que o atual PR morrer a Argélia continuará e só esta juventude “hirakiana”, politizada, cosmopolita e esclarecida garantirá a perenidade do “hexágono” enquanto referência magrebina, africana e europeia também.

No regresso da Alemanha, a 12 deste mês, Tebboune consultou os partidos da oposição e não os do governo, onde se inclui o seu, o histórico Front de Libération National (FLN), já que demasiado próximo do clã Bouteflika, aferiu a crise política e institucional em curso sob a perspetiva do Outro, percebeu a evolução das movimentações dos militares na sua ausência e decidiu apostar na fuga para a frente. Dissolveu a Assembleia Nacional, o que obriga à convocação de eleições legislativas até junho próximo, sendo que haverá até lá uma nova lei eleitoral que proibirá financiamentos a partir do exterior do país, fator que ajudará ao controlo da corrupção e dos alinhamentos com interesses externos. Agraciou os detidos do Hirak, que hoje, dia 22, podem festejar em liberdade o segundo aniversário de uma “bendita existência” que abre a partir de agora novas perspetivas para velhos problemas, incluindo a questão sarauí que se afunda cada vez mais numa guerra que arrisca subir de intensidade a cada dia que passa

Em resumo, o PR Tebboune assegurou desde já o seu lugar na história da Argélia, passando de figurante a ator principal, salvaguardando-se também de algum hipotético golpe na forja, que mesmo que ainda aconteça terá agora um escudo protetor nessa juventude libertada e que promete virar do avesso a paisagem política argelina neste início de década

Raul M. Braga Pires é politólogo/arabista

www.maghreb-machrek.pt