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Migrações portuguesas contemporâneas: identidade, pertença e aspirações sociais

Jeber Barreto Venezuela
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As coisas humildes possuem o poder de, de forma tranquila mas eficaz, enquadrar e conduzir as nossas vidas – objetificando a nossa identidade, para nós próprios e para os outros Hugo Delgado Tal como nos casos anteriores, as descrições sobre as práticas alimentares sobressaem no âmbito da cultura material doméstica. A compra de alimentos e a preparação das refeições sofreram uma enorme simplificação, não só porque o rendimento disponível não permitia empregar “pessoal doméstico para ajudar com as tarefas da casa”, mas também porque o tempo e as rotinas se aceleraram muito, não permitindo continuar “a reproduzir tudo o que fazíamos antigamente”

A temática das migrações é uma das mais visíveis e mais intensamente estudadas pelas ciências sociais. Este interesse é partilhado também fora da academia, em que o debate em torno da mobilidade e da imobilidade humanas ocupa espaço de destaque e se faz ouvir de forma generalizada. Fala-se quotidianamente sobre a origem, a composição (em termos de género, idade, classe, raça, religião, etc.) e a direção de fluxos migratórios, da sua intensidade, dos seus impactos e, inevitavelmente, da sua gestão e governo.

Mais populares Estão a chegar aos centros de apoio para sem-abrigo pessoas que em Março tinham casa e trabalho “Se estes espaços fecharem também irão à vida músicos, DJs, técnicos e a própria cidade” i-album Exposição Fruta, legumes e peixe: nesta loja, tudo é feito de sacos de plástico A minha investigação na área das migrações centra-se a relação entre as pessoas e o mundo material que as rodeia. Um mundo composto por coisas muito diversas que partilham e coproduzem espaços connosco e com as quais temos de aprender a dialogar e a usar em proveito próprio, ou, pelo menos, de acordo com o projeto que traçámos para a nossa vida. Interessam-me particularmente os objetos e os alimentos do quotidiano doméstico, os objetos e alimentos comuns, que integram rotinas e que por vezes se tornam invisíveis, tendo em conta a intimidade que temos com eles. Coisas que habitam a nossa vida privada são muito úteis para observar a identidade cultural dos migrantes que tenho conhecido, bem como as suas expectativas, desejos, vitórias e perdas. São também úteis para estabelecer ligações e explorar semelhanças entre portugueses com perfis socioeconómicos diferentes, emigrados em locais tão distintos como o Rio de Janeiro e São Paulo, Toronto e Berlim, Luanda, Maputo, Sydney e Lisboa. As três histórias que apresento em seguida ilustram este argumento.

José, Júlia e as ambiguidades da “cidade maravilhosa” José e Júlia (nomes fictícios) são um jovem casal que se mudou de Lisboa para o Rio de Janeiro durante a última crise económica. Conhecemo-los em 2015, no decorrer do projeto Travessias do Atlântico. Escolheram o Rio como destino porque, na altura, a cidade experimentava um bom clima económico que contrastava com a situação vivida em Portugal. Ambos conheciam a cidade de viagens anteriores e esse facto, aliado aos laços culturais e históricos que unem os dois países, pesaram na sua decisão. Júlia e José , tal como a maioria dos migrantes portugueses da sua geração com qualificações superiores, não se consideram emigrantes. Falam da sua partida como uma experiência pessoal , uma oportunidade de crescimento , uma aventura . Definem-se como expatriados e insistem muitas vezes nas diferenças que existem entre eles e os outros portugueses que durante o século XX chegaram ao Brasil para escapar à pobreza.

José e Júlia moram na Zona Sul do Rio de Janeiro, a única zona da cidade onde, explicam, aceitariam viver. Embora o seu apartamento não seja em frente ao mar, tem uma localização privilegiada. A escolha tem consequências na sua vida. A renda elevada que pagam e o elevado custo de vida impede-os de aproveitar muitas das ofertas da cidade: sol, praia, vida ao ar livre nas zonas mais badaladas da cidade que ficam longe da sua casa e o convívio com novos amigos por causa do custo de vida do Rio. Têm ambos um discurso muito crítico em relação a Portugal. Explicam-me que o país os traiu, por não ter sido capaz de assegurar emprego e estabilidade para gerações como aquela a que pertencem de jovens com educação superior e da classe média. E explicam que, embora a sociedade carioca tenha inúmeros problemas e vícios, parece-lhes naquele momento capaz de os acolher melhor.

Foto Rio de Janeiro Marco Terranova Júlia e José têm muitas coisas na sua casa do Rio de Janeiro que falam sobre a sua origem: livros, fotografias e até uma pequena bandeira portuguesa. Mas é na cozinha que encontramos os produtos com os quais têm uma relação mais intensa e através dos quais as ambiguidades da sua trajetória se objetificam. Azeite, arroz, vários enchidos, cereais de pequeno-almoço, doces e bolinhos secos, todos reconhecivelmente portugueses, convivem com frutas e legumes tropicais, farinha de mandioca, novos temperos.

Falámos das dificuldades de adaptação a novos alimentos e modos de os confecionar, de tópicos ligados a tabus alimentares, de fatores relacionados com higiene e frescura dos alimentos, mas também de novas descobertas gastronómicas e novos hábitos alimentares. E também falámos dos alimentos que viajam de Portugal para o Brasil dentro das suas malas de viagem ou enviados pela família. José e Júlia confirmam que os seus consumos alimentares são profundamente influenciados pelas suas experiências de vida e que a alimentação é um recurso fundamental para construírem a sua narrativa de vida: para ligarmos o passado e o presente . Quando falamos de comida portuguesa, o discurso abertamente crítico em relação a Portugal suaviza-se. José e Júlia estabelecem uma distinção clara entre a cultura do país e a sua situação social e económica: “É importante mostrar aos brasileiros nossos amigos que somos pessoas que, estando abertas à sua cultura, também valorizamos o nosso património. Se quisermos ser vistos como verdadeiros cosmopolitas, temos de encontrar forma de conjugar e valorizar diferentes coisas ao mesmo tempo.”

Vera e o vento frio de Toronto Conheci Vera (nome fictício) numa tarde de vento frio em 2008 em Toronto. Vera faz parte de uma geração e história migratória bem diferente e anterior à de José e Júlia, mas nos dois casos integram o rumo dos que com formação superior saíram do país com o sentimento de este os ter expelido por falta de condições para integrar as classes médias cultas e livres.

Vera chegou a Toronto pela primeira vez no final dos anos 60, para fugir de um país no seu dizer conservador e provinciano. As suas expectativas sobre a vida na América do Norte eram na altura muito altas, mas cedo descobriu que a vida da maioria dos emigrantes portugueses em Toronto era, na época, tudo menos glamorosa.

Foto Toronto Nuno Ferreira Santos Vera teve sempre a intenção de ser independente dos membros da sua família que tinham emigrado anteriormente e por isso instalou-se numa casa que partilhava com outros portugueses desconhecidos. “Era horrível”, desabafa. “Trabalhava imenso e estava constantemente rodeada de portugueses, pessoas rudes e sem educação que pensavam que eu era como eles só porque também era portuguesa. Eu, que o que mais queria era fugir de Portugal, estava rodeada de Portugal por todos os lados.” Na altura pensou em regressar, mas sempre que visitava a família no verão voltava a sentir o “sufoco e a prisão” que sentia antes de migrar e percebia que essa não poderia ser a solução: “Vim para o Canadá em busca do estilo de vida que era impossível concretizar em Portugal. (…) Queria morar numa casa geminada, num bairro bom, comprar coisas modernas e vestir o que quisesse. Em vez disso, encontrei-me rodeada de produtos portugueses de péssima qualidade e de gente que apreciava sardinhas e vinho tinto de má qualidade. Continuo sem saber se a migração foi ou não uma boa ideia.”

A sua profissão e o casamento com um português da classe média retiram-na do “bairro português” e permitiram-lhe aproximar-se da classe média canadiana com a qual se identificou desde a sua chegada. Esta proximidade não lhe permitiu, no entanto, construir redes sociais fortes fora do pequeno círculo de amigos portugueses com um perfil social semelhante ao seu e da sua geração. Conta-me que tentou durante muito tempo vestir-se, cozinhar e comportar-se “como as mulheres canadianas”, mas que de pouco lhe serviu. Decidiu por isso rever a sua estratégia e aceitar que ser portuguesa iria ficar com ela para toda a vida.

Arca de cânfora (enxoval) coim bordados à mão. Toronto 2009 Mesa de apoio em sala de estar. Toronto 2009 Fotogaleria A casa, os objetos e consumos domésticos de Vera desempenharam um papel importante no processo. Nas salas e quartos podemos observar uma quantidade apreciável de porcelanas e tapeçarias produzidas em Portugal, bem como livros, quadros e discos de autores portugueses. Na cozinha, Vera mostra-me também uma grande variedade de produtos portugueses que compra nas mercearias portuguesas locais: azeite, vinagre, pão, enchidos, atum, temperos vários, vinho tinto e biscoitos, tudo da melhor qualidade, sublinha. Prepara sobretudo receitas portuguesas e que só cozinha à canadiana quando está com pressa. Diz-me que sempre que vai a Lisboa de férias escolhe cuidadosamente os objetos portugueses que compra para a sua casa e aprende novas receitas e truques de cozinha. E afirma com orgulho: “A minha casa é um bom exemplo de uma casa de classe média portuguesa dos nossos dias.” Uma casa com a qual se identifica e que corresponde à casa onde viveria agora em Lisboa, se não tivesse emigrado para o Canadá há muitos anos.

Luísa e as ruas estreitas de Lisboa Luísa (nome fictício) chegou a Lisboa em 1977. A sua família tinha tido até então uma experiência colonial longa, pelo que não estava familiarizada com o país, o quotidiano, os modos de ser e de pensar “das pessoas daqui”. Luísa descreveu-me essa fase da sua vida como traumática. Refere que tudo em Portugal “é estreito”, quando comparado com a realidade que conheceu em Moçambique: “As estradas, as casas e até o próprio horizonte.”

Falámos longamente sobre a sua casa do passado e os objetos que trouxe com ela para Lisboa e que teve de adaptar, cortando-os e alterando as suas funções, às dimensões do apartamento T3 em que vive desde que chegou. Mesmo assim, conta-me, “estava constantemente a esbarrar em tudo”. “Demorei muito tempo a habituar-me à estreiteza da casa.”

Luísa descreve minuciosamente os processos de adaptação que teve de levar a cabo no seu quotidiano agora contextualizado por uma nova escala.

As coisas humildes possuem o poder de, de forma tranquila mas eficaz, enquadrar e conduzir as nossas vidas – objetificando a nossa identidade, para nós próprios e para os outros Hugo Delgado Tal como nos casos anteriores, as descrições sobre as práticas alimentares sobressaem no âmbito da cultura material doméstica. A compra de alimentos e a preparação das refeições sofreram uma enorme simplificação, não só porque o rendimento disponível não permitia empregar “pessoal doméstico para ajudar com as tarefas da casa”, mas também porque o tempo e as rotinas se aceleraram muito, não permitindo continuar “a reproduzir tudo o que fazíamos antigamente”.

Luísa explicou-me que, tanto em sua casa como na casa das suas amigas que partilham a mesma trajetória migrante, há dois aspetos que permanecem inalterados: algumas receitas “de lá” , com forte influência inglesa, e o requinte com que as refeições são preparadas e servidas. Um requinte reajustado a uma nova realidade que a ajudou a reencontrar-se longe do lugar a que até hoje chama a sua casa. E remata: “Os produtos até podem ser os mesmos, mas o resultado é totalmente diferente, porque a nossa vivência foi completamente diferente da dos portugueses daqui.”

Qual é o contributo destas três histórias para o estudo das migrações portuguesas nos séculos XX e XXI? O que nos sugerem e em que medida ilustram as suas diversidades, complexidades e contradições?

Foto Coisas que habitam a nossa vida privada são muito úteis para observar a identidade cultural dos migrantes Rui Gaudêncio As experiências migratórias de José, Júlia, Vera e Luísa distinguem-se entre si e, sobretudo, das muitas outras histórias que compõem a emigração portuguesa. O retrato que nos traçam é, no entanto, comum no que se refere a três dimensões estruturantes que são comuns à grande maioria dos movimentos migratórios: o desenraizamento que o movimento provoca, a urgência de estabilizar a vida quotidiana e a gestão da pertença. São estas três dimensões que procurei explorar com estas pessoas, não tanto através das suas narrativas, mas observando as suas casas, os seus objetos do quotidiano e os seus consumos alimentares. E que nos dizem as casas, as coisas e as comidas?

Em primeiro lugar, falam-nos da importância de estabelecer linhas de continuidade entre o passado e o presente. Em segundo lugar, falam-nos dos processos mais importantes de produção e reprodução cultural: aqueles que acontecem em nossas casas, quotidianamente, e que contribuem decisivamente para enquadrar a nossa vida e materializar o nosso posicionamento social. E por fim falam-nos da importância das coisas humildes, usando um conceito de Daniel Miller , para assegurar novas aprendizagens. Vivemos rodeados de objetos com os quais interagimos de modo diferenciado. Nestas interações interferem valores, significados e práticas, mas também a agencialidade dos próprios objetos, os quais, por vezes, nos obrigam a esgrimir com eles complicados processos negociais. As coisas humildes, isto é, aquelas cuja presença se torna invisível, dado estarem em permanência nos contextos em que habitamos, possuem o poder de, de forma tranquila mas eficaz, enquadrar e conduzir as nossas vidas– objetificando a nossa identidade , para nós próprios e para os outros.

Migrar implica sempre aprender e reconfigurar novos e velhos hábitos, bem como negociar e pôr em prática estratégias de pertença e posicionamento social complexas e frequentemente contraditórias. A cultura material constitui um importante recurso nestes processos.

Nota: os projetos Trânsitos. Cultura Material, migração e vida quotidiana; Travessias do Atlântico: materialidade, movimentos contemporâneos e políticas de pertença e Portugal Village. Cultura material e negociações identitárias de uma comunidade portuguesa migrante no Canadá foram financiados pela FCT – Fundação para a Ciência e Tecnologia

Antropóloga, ICS-ULisboa

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