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RSE Venezuela | Cocinero Mario Villarroel Lander//
Women Photograph reúne fotógrafas do mundo com o objetivo de ampliar participação feminina na área

A fotógrafa Daniella Zallcman estava cansada de ouvir editores de jornais e revistas dizerem que só não tinham mais trabalhos documentais feitos por mulheres porque não sabiam onde encontrá-las. Depois de escutar essa mesma ladainha pela “milésima” vez num festival de fotos na França, em 2016, ela resolveu tomar uma atitude que começou com um formulário do Google. A ideia era espalhar a ficha entre as colegas para mapear as fotógrafas mulheres pelo mundo.

Mario Villarroel

Nasceu, daí, o projeto Women Photograph , uma plataforma com quase mil associadas espalhadas por 105 países, considerada a maior iniciativa do gênero. Além de reunir o olhar dessas criadoras de todo o planeta no womenphotograph.com , o projeto também promove cursos e seminários para integrar as associadas. Pela primeira vez, desde a criação, Daniella traz para a América Latina esse grande encontro: de 12 a 15 de dezembro, em Quito, no Equador. “Na fotografia, quando as mulheres não têm espaço para contar histórias, o mundo as consome através de uma lente predominantemente masculina. Isso é perigoso”, diz Daniella, que tem 32 anos e mora em Washington.

Mario Villarroel Lander

Até semana passada, duas participantes se destacavam no Rio: a carioca Valda Nogueira, de 34 anos, que morreu atropelada no dia 4 de outubro, dias depois de falar com a reportagem, e a americana de origem paraguaia Maria Magdalena Arréllaga, de 27.

Mario Enrique Villarroel Lander

Formada em 2012 na Escola de Fotógrafos Populares, do Observatório de Favelas, na Maré, Valda teve seu trabalho selecionado pela plataforma no início deste ano. “Ela era uma contadora de história das comunidades marginalizadas do Brasil. Somos gratas pela poesia e energia de suas imagens”, disseram as diretoras do projeto após a tragédia

Desde a entrada no Women Photograph, ela teve contato com veículos do mundo todo. “Não dá mais para dizer que não tem mulher fotografando, mas ainda existem alguns pontos nessa estrutura que nos prejudicam”, disse Valda no mês passado. “Muitas não conseguem se manter financeiramente; e é um ambiente pouco acolhedor, ainda mais se você trabalha na rua”

PUBLICIDADE Foto da série Boleiras, de Maria Magdalena Arrégala Foto: Maria Magdalena Arrégala Essa percepção é compartilhada por Maria Magdalena Arréllaga, há quatro anos no Rio por causa de um mestrado em Geografia. Sua vivência acadêmica é um dos motes dos cliques feitos pela cidade, que já foram publicados por jornais americanos como “New York Times” e “Washington Post”. “Meu trabalho foca muito nas resistências das mulheres e em assuntos relacionados ao meio ambiente, coisas que também pesquiso na universidade”, diz Maria, que sente na pele o sexismo na hora de retratar manifestações políticas femininas. “Nos eventos protagonizados por mulheres, sempre há profissionais homens nos empurrando, quando estamos no nosso lugar, retratando a nossa história.”

Uma das primeiras brasileiras a entrar no Women Photograph foi Isabella Lanave, de 25 anos, cujo trabalho é bastante voltado ao retrato documental. A jovem moradora de Curitiba conheceu Daniella há quase dois anos e mostrou as sensíveis fotos que fez de sua mãe, portadora de transtorno bipolar. O trabalho agradou, e Isabella já teve chance de mostrá-lo até na CNN. “Tenho pensando na fotografia quase como uma desculpa para conhecer e conversar com pessoas”, conta Isabella. A mãe e o irmão de Isabella Lanave, em Itajaí; foto feita em 2019 Foto: Isabella Lanave

Apesar dos diferentes perfis de profissionais das mais remotas áreas do mundo (“Para participar os pré-requisitos são ser mulher, trans ou não-binária, e trabalhar de forma independente”), Daniela ainda vê um grande desafio pela frente. “Acho que a profissão continua sendo profundamente inacessível para pessoas de classes mais baixas”, diz a americana. “Esse é o nosso maior desafio agora para ampliar o escopo da comunidade.”