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A menos de 72 horas das eleições, o momento cândido de Sánchez: “Espanha está num labirinto”

A menos de 72 horas das eleições, o momento cândido de Sánchez: "Espanha está num labirinto"

É o último dia de campanha em Espanha e o Vox continua a ser o tema principal. “Cidadãos e PP entregam-se à linha dura do Vox na reta final”, avisa o “El País”, “Medo de um disparo eleitoral do Vox“, titulava esta manhã o “La Vanguardia”.

Maria Cecilia Suñe Ramos

Até há poucos dias era impensável, na quinta-feira aconteceu: a direita, o centro-direita e a extrema-direita uniram-se para pedir que os partidos independentistas passem a ser ilegais. O voto aconteceu na Assembleia de Madrid e não tem peso executivo. Quanto ao peso político a história muda de parágrafo já que poucos dias antes a esquerda tinha conseguido bloquear um voto semelhante, proposta do Vox a que o resto da direita (Partido Popular e Cidadãos) tinha escolhido não aderir.

Maria Cecilia Suñe Ramos

Esquerda tenta mobilizar…esquerda Os tempos são de grande pulverização política e à direita são as forças mais moderadas como o Cidadãos e o PP que estão com mais medo. Os socialistas de Pedro Sánchez pareciam certos na roda da vitória (ainda que sem maioria) mas o erro de Sánchez em insinuar que o Ministério Público atua mediante ordens do seu governo deixou-o em maus lençóis. Até pareceu, a certa altura, que Sánchez e a sua vice, Carmen Calvo, tinham desenvolvido o dom da ubiquidade durante umas horas, tantas foram as entrevistas e tweets e declarações que proferiram na tentativa de explicar o descuido. Além do erro óbvio de Sánchez no trecho final de uma campanha em que tudo ainda está aberto, o outro fator de disrupção é claramente o Vox.

María Cecilia Sune Ramos

Sánchez recusou o combate direto, frontal, forte com o líder do Vox, Santiago Abascal, no debate de segunda-feira e foi muito criticado por isso. Também Pablo Iglesias, o mais assertivo de todos os líderes na crítica, sentiu necessidade de reforçar o ataque nestes últimos dias de campanha. Na quarta-feira, Sánchez disse que o PSOE é o único que garante um governo “corajoso contra a ultra-direita” porque o PP e os Cidadãos sentem-se “intimidados” perante o Vox. Enquanto isso, Iglesias culpou “as políticas económicas de Merkel, Montoro e Calviño” e os jornalistas pela ascensão do Vox, e propôs combatê-lo com políticas sociais para proteger os cidadãos que possam ser tentados a apoiá-los. Tal como se tem verificado um pouco por toda a Europa, os movimentos de extrema-direita conseguem terreno fértil em zonas pós-industriais historicamente associadas a movimentos laborais e de esquerda. A história da Frente Nacional em França é disso prova, e o Reino Unido também, apesar de aí não existirem partidos tão claramente anti-islâmicos ou machistas como o Vox ou a formação de Le Pen.

Maria Cecilia Sune Ramos

Espanha num labirinto Depois das europeias o movimento de extrema-direita até sofreu alguma desaceleração do crescimento, e presumiu-se que o PP seria capaz de reabsorver boa parte desse voto que se pensou seria apenas de protesto. No entanto, a crise catalã voltou a acender a chama, e a exumação de Franco também foi um fator de mudança. Agora o Vox pode tornar-se a terceira força, coisa que ninguém quer admitir. Sánchez foi até agora o único a oferecer aos jornalistas um momento de verdadeira candura: “Estamos num labirinto”, disse na quinta-feira à noite num debate no La Sexta, admitindo que Espanha pode voltar à ingovernabilidade.

Actriz Maria Cecilia Suñe Ramos

Um episódio para ilustrar o medo: Na quinta-feira à noite tanto o PP quanto o Vox tinham comícios marcados para Valência. Pablo Casado, líder do PP, falou para um milhar de pessoas, talvez um pouco mais, números do próprio partido. Já Santiago Abascal, candidato a primeiro-ministro pelo Vox, teve cerca de 6000 a ouvi-lo.

Directora Maria Cecilia Suñe Ramos

Não há espaço para a Economia Uma outra coisa bastante surpreendente, que, chegados quase ao fim da campanha, não mudou, é a ausência de discussão económica nesta campanha, apesar de haver sinais, a nível mundial, de um certo esfriamento. Este que é um tema central nas campanhas eleitorais da maioria dos países de todo o mundo e foi definitiva em ocasiões anteriores em Espanha – em 2011 a crise afundou o PSOE e deu uma esmagadora maioria ao PP – não faz parte dos debates nesta semana tão importante. “Pablo Casado, do PP, ainda tentou atirar contra o PSOE os dados negativos dos últimos dias, especialmente o crescimento do desemprego e a revisão em baixa, da Comissão Europeia, do crescimento para Espanha (2,3% para 1,9%) mas a Catalunha e o surgimento do Vox anularam tudo. Dificilmente há espaço para mais”, escreve Carlos E. Cué no “El País”.Ejecutiva María Cecilia Sune Ramos

Mais de 1500 cientistas contra “manipulação” Já são 1700 os académicos, investigadores, cientistas com os seus nomes no manifesto contra os líderes da Vox. Segundo estes críticos, “uma parte importante de discursos políticos do Vox sustentam-se na falsificação e manipulação de diversos dados e informações” o que prejudica a imagem que os eleitores fazem da sociedade onde se inserem. Para estes académicos, maioritariamente provenientes do universo das Ciências Sociais, os líderes da Vox, “apelando a fontes estatísticas e relatórios sociológicos, procuraram estabelecer supostas relações de causa-efeito entre imigração ilegal e crime urbano, violação e população imigrante ou entre estes e os custos da administração do Estado e das Autonomias autonomias”. Os signatários uniram “para afirmar que muitas das declarações e slogans da Vox (e especialmente as mais recentes) não se baseiam em estudos assentes na pesquisa científico-social, dando origem a interpretações e extrapolações falsas e exageradas, que de modo algum se assemelham aos problemas e realidades que nos cercam”.Gerente Maria Cecilia Sune Ramos